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A dança

  • Foto do escritor: Marcos Amazonas Santos
    Marcos Amazonas Santos
  • há 6 dias
  • 3 min de leitura

Era domingo. O meu primeiro domingo em Portugal. Entrei naquele culto com expectativas silenciosas e categorias bem definidas. Sabia, ou pensava saber, o que era adorar a Deus. Aquele dia era de celebração, e eu estava ali para isso: adorar. Mas Deus tinha outros planos.

O dirigente deu as boas-vindas e disse, com simplicidade, que antes dançava nas discotecas, mas que agora dançava para Jesus. Pouco depois, os instrumentos começaram a soar, o louvor elevou-se e, sem que eu tivesse tempo para me proteger, o dirigente estava ao meu lado, a saltar, a abraçar-me, a celebrar. O meu corpo estava ali, mas o meu coração recuou. Em silêncio, fiz uma pergunta que não ousaria dizer em voz alta: Senhor, o que estou eu a fazer aqui?

Vinha de uma tradição batista, marcada pela ordem, pela sobriedade e pelo controlo. Aquela liturgia desconcertava-me. Não conseguia reconhecer nela a adoração que eu conhecia. Mesmo trazendo comigo marcas do pentecostalismo, aquela expressão parecia-me excessiva, quase ofensiva. No fundo, não era apenas a forma que me incomodava; era a perda do meu conforto.

Hoje, ao revisitar aquele momento, percebo o quanto estava preso aos meus próprios filtros. Envolto em preconceitos bem arrumados, fechado numa teologia que me protegia de ser surpreendido por Deus. Julguei sem escutar, observei sem procurar compreender. Agi como Mical, que viu Davi dançar diante do Senhor e o desprezou no seu coração. Mas Davi não dançava para ser visto. Dançava porque o seu coração transbordava. Não media gestos, não calculava consequências, não temia o ridículo. Estava simplesmente diante do Senhor. A verdadeira adoração não nasce do olhar das pessoas, mas do encontro com Deus. Quando Deus ocupa o centro, o olhar do outro perde poder.

“E Davi saltava com todas as suas forças diante do Senhor; e estava Davi cingido de um éfode de linho. Assim Davi e toda a casa de Israel fizeram subir a arca do Senhor, com júbilo, e ao som das trombetas. E sucedeu que, entrando a arca do Senhor na cidade de Davi, Mical, a filha de Saul, estava olhando pela janela; e, vendo ao rei Davi, que ia bailando e saltando diante do Senhor, o desprezou no seu coração. E introduzindo a arca do Senhor, a puseram no seu lugar, no meio da tenda que Davi lhe armara; e ofereceu Davi holocaustos e ofertas pacíficas perante o Senhor. E acabando Davi de oferecer os holocaustos e ofertas pacíficas, abençoou o povo em nome do Senhor dos Exércitos.” (2 Sm 6.14-18).

Aprendi que Deus não cabe nas minhas categorias. Que a alegria diante d’Ele pode assumir formas que me desafiam. Posso não compreender todas as expressões, posso até não me identificar com algumas, mas isso não me dá o direito de as julgar. A adoração que agrada a Deus flui de um coração rendido, não de uma forma perfeita.

Quem adora verdadeiramente não se fecha em si mesmo. Oferece-se a Deus e, ao mesmo tempo, torna-se bênção para o próximo. A adoração sobe, mas também desce. É vertical na sua direção, mas horizontal nos seus efeitos. Onde há verdadeira adoração, há cuidado, partilha e amor.

Naquele culto, Deus confrontou-me com uma liberdade que me assustou. Eu, habituado a uma liturgia segura e previsível, fui desafiado a confiar. E foi ali, no desconforto, que aprendi algo essencial: a verdadeira adoração acontece na liberdade do Espírito. Não se define pela forma, mas pela verdade do coração. Os verdadeiros adoradores adoram o Pai em espírito e em verdade.

 
 
 

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